Fazia sol em Maresias, naquele 5 de janeiro. Alto verão, sol, piscina,
praia, ondas, romance e muito, mas MUITO MAIS. A galera toda já havia bebido
mais que o suficiente para um sábado a tarde. Olhei para todos os lados a
procura dele, sim, existe um "ELE" na história, mas é claro que
existe um romance. Se não existisse, por quê eu haveria de contar uma história,
não é ?
Ele era lindo, másculo, charmoso, educado, um tanto quanto egocêntrico e
bonito, BONITO demais. Ser tão bonito era o problema de Marcos, todas as
garotas queriam um pedacinho dele, o pior é que dentre todas as concorrentes eu
era a mais comum (para não dizer feia).
Vou me descrever para que não haja dúvidas. Sou baixinha, tipo 1,65,
loira, quer dizer, sou morena, mas, tenho californianas, quase loira, né ?
Tenho olhos castanhos e corpo comum, nem gordinha, nem magrinha, simplesmente,
comum. As minhas concorrentes eram loiras, gostosonas e sensuais. E eu, pobre
de mim, uma mera estudante de letras da PUC de SP. Alias, ainda no primeiro
semestre.
Já havia desistido de Marcos aquela altura do campeonato, já havia
desperdiçado todos os meus truques de sedução e nada dele me notar. O belo dia
que eu me conformei e parei de dar bola, ele veio atrás de mim, dá pra
acreditar como os homens são previsíveis ? Papo vai, papo vem, chegamos a
primeira ficada, que aliás, nem foi tão boa quanto eu esperava. Só que para
minha tristeza (ou alegria?) ele me desprezou no dia seguinte. Depois de tantos
amassos ao som de Planta&Raiz, todo aquele clima praiano e descontraído e
lá vou eu voltando sozinha para minha barraca.
Não que tenha sido por falta de aviso, todas as minhas amigas disseram
que ele era um galinha, que não ligava para ninguém, e todas essas coisas que
amigas dizem, mas quando eu coloco algo na cabeça...
Por ironia, ou sorte, o destino colocou outro cara na minha vida, não
tão bonito e muito menos másculo. Guilherme apareceu todo desajustado, usando
uma bermuda de listras, um óculos de nerd e aparentemente meio chapado (esse
talvez seja o seu estado normal). Eu estava fazendo o trajeto do luau para o
camping quando ele esbarrou em mim e derrubou o meu copo de cerveja, claro que
ele se desculpou e ofereceu outra para compensar. No meu estado atual de
desolação, achei que nada poderia piorar a minha noite, sendo assim, aceitei o
convite dele.
Acabei descobrindo que além de parecer nerd, Guilherme era muito nerd de
verdade, músico, artista plástico e amante de bons livros. Claro que a bebida
ajudou o nosso entrosamento, travamos uma longa conversa sobre o modernismo
brasileiro e grandes escritores mundiais.
Para o meu maior desolamento, fui para cama (barraca), com Guilherme, e
não que eu me arrependa, longe de mim. Claro que foi bom, mágico e totalmente
bêbado. Quando estamos bêbados tudo é mais bonito.
No dia seguinte a nossa noite de amor, ou sexo selvagem e louco, nós
acordamos e olhamos um para outro com aquela cara de “Eu falo, ou você fala?”,
eu desinibida que sou, abri a boca e joguei a real. “Guilherme, você é um cara
bacana e eu adorei a noite, mas, acontece que eu na atual circunstância, não estou à procura de um
romance”. Se arrependimento matasse eu estaria à 7 palmos do chão com absoluta
certeza. Que tipo de mulher faz isso ? Será que eu me infectei com o
“galinhisse” de Marcos ? Só sei que me vi proferindo aquelas palavras e já era
tarde demais, não dava para empurrá-las de volta para a boca.
Guilherme pegou suas coisas e saiu do seu jeitinho desastrado e sumiu da
minha vista, nos dias seguintes de férias não o vi em nenhum canto. Até tentei
procurar, mas acabei desistindo depois de ouvir um longo sermão de Thaís,
dizendo quão sem sentimentos e grosseira eu era. Ai vai mais um detalhe sobre a
minha vida, só tenho amigas donas da razão, mas o pior é que elas sempre tem
razão.
Voltei para São Paulo, para a minha rotina, sou colunista em uma revista
do meu bairro, escrevo sobre aleatoriedades, cinema, artes entre outras coisas.
Fui para a faculdade naquele dia pensando apenas em matar aula e ir tomar uma
gelada no bar. Perdi uma aula importante, que compensou muito.
Chegando no bar, pedi a minha cerveja e acendi um cigarro. Pensei na
vida, desabafei com as amigas e decidi que arrumaria o amor da minha vida em
breve. Levantei com o meu copo na mão e fui em direção ao banheiro e por
incrível que pareça, ele, SIM, ele, Guilherme esbarrou em mim e derrubou a
minha cerveja novamente, como se fosse um filme, só que menos glamoroso.
Sentamos em uma mesa e continuamos um papo descontraído sobre como a vida nos
surpreende.
Pois é, o amor acontece de repente e chega com cautela. E quem foi que
disse que amor de verão não sobe a serra ?


